26 de fevereiro de 2009

Cristalizado

Você já teve a sensação de que jamais deveria ter abandonado aquela concha que o mar carregou até seus pés? A memória daquela obra fantástica permanece em todos os seus sentidos e hoje, com um arrependimento amargo, percebe que a melodia que fugia do seu interior era, em toda a sua doçura, o último som verdadeiro a ser captado pelo seu coração.

Todos nós passamos pela experiência do primeiro e grande amor. Inevitavelmente, é essa relação que acaba nos moldando, e sem que se perceba, tentamos cristalizar as características mais ternas dessa primeira ligação durante toda a vida.

Mas, de uma forma ou de outra, isso é impossível. O coração, depois de invadido por essa obra fundamental, nunca mais é o mesmo. Jamais terá a mesma coragem. Jamais a mesma genuinidade...

Por que afinal estou escrevendo isso? Foi somente uma frase, que li por acaso no dia de hoje:

"Pode ser que o sol se levante sobre as tuas mãos sem vontade e encontres as coisas perdidas na sombra em que as abandonaste"

Ah! Minha cara Cecília, como eu gostaria de ter a força para acreditar nisso, sem ter meu coração desmontado pela velocidade insana a que esses pensamentos me levam.
[...]

Decidi compartilhar a poesia de onde retirei a tal frase. Logicamente, da Cecília Meireles.

Inverno

Choveu tanto sôbre o teu peito
que as flores não podem estar vivas
e os passos perderam a fôrça
de buscar estradas antigas.
 
Em muita noite houve esperanças
abrindo as asas sôbre as ondas.
Mas o vento era tão terrível!
Mas as águas eram tão longas!
 
Pode ser que o sol se levante
sôbre as tuas mãos sem vontade
e encontres as coisas perdidas
na sombra em que as abandonaste.
 
Mas quem virá com as mãos brilhantes
trazendo o seu beijo e o teu nome,
para que saibas que és tu mesmo,
e reconheças o teu sonho?
 
A primavera foi tão clara
que se viram novas estrêlas,
e soaram no cristal dos mares, 
lábios azues de outras sereias.
 
Vieram, por ti, músicas límpidas,
trançando sons de ouro e de sêda.
Mas teus ouvidos noutro mundo 
desalteravam sua sêde.
 
Cresceram prados ondulantes
e o céu desenhou novos sonhos,
e houve muitas alegorias
navegando entre Deus e os homens.
 
Mas tu estavas de olhos fechados
prendendo o tempo em teu sorriso.
E em tua vida a primavera
não poude achar nenhum motivo...

Obs: Somente agora percebi como o texto está incoerente. Por outro lado, me senti bem escrevendo ele.

13 de fevereiro de 2009

Canção

"Hoje uma silenciosa canção caminha pela terra. Mesmo que insegura, está repleta de estrelas, vento e dor. Entre uma chuva e outra, ela parece procurar abrigo nas sombras, nas flores que escorrem pelo muro, na minha voz".

10 de fevereiro de 2009

Perfume

Por qual razão me dedico a telas de tons sombrios e irreais, quando meu sangue é da mesma cor que os rubros vinhos? Por qual razão caminho por paisagens de uma inocência desfeita, cheia de lírios decadentes, onde o horizonte guarda somente a ausência de luz? Ainda mais triste é querer saber por que, nesse doido anseio por amar, acabo absorvendo o fulgor triste e doloroso de lamparinas fadadas à escuridão.

Nessa febre que me invade, esqueço que trago o desenho das mais serenas montanhas em meu corpo. E a sombra desses muros negros não pode desfolhar as orquídeas vaporosas que nascem sobre meu coração. Simplesmente não podem. Pois é preciso guardar esse perfume tão gentil, para aquela nuvem que em sua trajetória modela meu sonho e minha imaginação. Para aquele bater de asas que explode em meu peito, como se sustentando o rugir de todas as águas. É preciso guardar um perfume tão gentil, para tuas mãos lindas de menina. Preciso guardá-lo... para você.

8 de fevereiro de 2009

Para você...

Vivo coberto pela sombra desse mar profundo e eterno. Com seus pequenos peixes de luz que se desmancham nessa maré de ondas tão longas, tenho a sensação de que alguns deles querem me levar por roteiros que guardam a exata ressonância da minha alma. Mas são esses o que somem sem deixar rastros.

Contornado de olhos fechados às ondas rápidas que passam e depois se apagam, sinto meu coração preso num imenso suspiro, pois uma rota com o teu nome foi traçada.

Para te alcançar, no entanto, será preciso pousar delicadas conchas sobre os teus pés, enquanto mergulho meus sentidos no som inesquecível das canções pelas quais você veleja. Será preciso, ainda, naufragar no dom secreto desses senhores do mar, fazendo brotar borboletas no vento que guarda o teu perfume, tirando a coragem de meu coração e tornando a alma bela, como se iluminada por um amanhecer definitivo.

6 de fevereiro de 2009

Flash

Folheando minha edição do livro Flor de Poemas de Cecília Meireles, encontrei o seguinte flash sobre a poetisa, escrito por João Condé e publicado no "O Cruzeiro", Rio de Janeiro, em 31 de dezembro de 1955. Acredito que foram poucos os livros sobre a autora que eventualmente inseriram tal trabalho em suas páginas, por isso resolvi compatilhá-lo.

"Nome: Cecília Meireles - Nasceu no Distrito Federal - Casada, tem três filhas e dois netos - Altura, 1,64 - Pesa 59 quilos e calça sapatos número 37 - É quase vegetariana - Não fuma, não bebe, não joga - Não pratica nenhum esporte, mas gosta muito de caminhar e acha que seria capaz de dar a volta ao mundo a pé - Não gosta de futebol e raramente vai ao cinema - Gosta de bom teatro - Responde pontualmente todas as cartas que recebe, mas atrasa-se, às vezes, em agradecer livros, porque só agradece depois de os ler - Adora música, especialmente canções medievais, espanholas e orientais - Poetas preferidos: todos os bons poetas - Prefere os pintores flamengos - Dorme e acorda cedo - Leu Eça de Queirós antes dos 13 anos - Escreveu o seu primeiro verso aos 9 anos - Estudou canto, violão, violino e, às vezes, desenha - Se pudesse recomeçar a vida, gostaria de ser a mesma coisa, porém melhor - Seu primeiro livro publicado foi Espectros, tinha 16 anos - Seu principal defeito: uma certa ausência do mundo - Seu tormento: desejar fazer o bem as pessoas que precisam de auxílio e não o aceitam - Nunca viu assombração, mas gostaria de ver - Não tem medo de viajar de avião em viagens longas - Gostaria de tornar a visitar o Oriente e chegar até a China - Pensa que poderia, pelo menos, ficar muito tempo no Mediterrâneo - Coleciona objetos de arte popular - Já colecionou xícaras e colheres de chá - Agora acha o café tão ruim que não vale a pena colecionar os acessórios - Teve grande emoção quando chegou aos Açores, terra de seus antepassados - Outra emoção grande: quando viu a sua "Elegia a Gandhi" traduzida em idiomas da Índia - É o poeta brasileiro mais conhecido em Portugal - Até agora não conseguiu gostar de Paris, embora admire a França - Admira profundamente São Francisco de Assis, Gandhi e Vinoba Bhave - Coisas que a horrorizam: tocar em papel carbono, ver comer ostras, aspirar fumaça de ônibus - Coisas que ama: crianças, objetos antigos, flores, música de cravo, praia deserta, livros, livros, livros, noite com estrelas e nuvens ao mesmo tempo - Acha que não tem medo da morte - Gostaria de morrer em paz."

3 de fevereiro de 2009

Lágrimas Viajantes

Há quem diga que as lágrimas são naus de névoa perdidos numa rota secreta e bela. Flores de vidro que sucumbem ao sentir o suspiro amargo em nosso peito.
Há ainda quem diga que, a cada lágrima que damos vida, uma parte de nós evapora-se, indo repousar em um vale de profundo silêncio e esquecimento.

Agora, me pergunto, como eram as lágrimas que dediquei a você? Para onde foram esses enredos tristíssimos? Não sei. Talvez por sentir as cores dessa música que te embala escorrendo pelos meus dedos, eu prefira amar o céu do que lembrar desses pequenos universos suspensos nos seus cabelos. Talvez, por meu coração infatigável ter descoberto, ainda que inutilmente, o itinerário dessa multidão de estrelas violetas que viajavam em você, seja melhor jamais lembrar.

Criança

Uma das minhas poesias preferidas, extraída do livro Viagem, de Cecília Meireles. A esse livro foi concedido o Prêmio de Poesia Olavo Bilac, em 1939, pela Academia Brasileira de Letras.

Cabecinha boa de menino triste,
de menino triste que sofre sòzinho,
que sòzinho sofre, - e resiste.

Cabecinha boa de menino ausente,
que de sofrer tanto se fez pensativo,
e não sabe mais o que sente...

Cabecinha boa de menino mudo
que não teve nada, que não pediu nada,
pelo mêdo de perder tudo.

Cabecinha boa de menino santo
que do alto se inclina sôbre a água do mundo
para mirar seu desencanto.

Para vêr passar numa onda lenta e fria
a estrêla perdida da felicidade
que soube que não possuiria.


Cecília Meireles